Follow me:

    Doctorate

    E hoje eu tive mais uma reunião com o meu orientador. Para não perder o hábito, entrei em seu laboratório com desesperança e algumas gotas de agonia no olhar. Não é fácil fazer pesquisa, não é fácil escrever uma tese, não é fácil encontrar paz em um tema complexo. Não é fácil encontrar um tema, aliás. E ainda tenho a sorte de ter um excelente orientador. Crítico, dedicado, muito inteligente e preocupado, aspectos que fazem toda a diferença na minha vida acadêmica.

    E hoje, entre uma discussão e outra, falamos sobre lugares e mudanças. Lugares para trabalhar, morar, aposentar. Eu disse que não tinha um lugar e que a minha localização nesse mundo era incerta. Eu disse que não queria ficar aqui e que também não queria voltar. Eu disse que não conseguia criar raízes, nada era o meu lar.

    – Sou uma alma perdida nesse mundo, sem lugar para estar.

    E ele me respondeu: você sempre enxerga do jeito errado. Alma perdida que nada. Você pode ir para qualquer lugar, você é do mundo. Você é uma mulher livre.

    Acho que nunca mais vou encarar o meu sentimento de “não pertencer” como algo negativo. O que tenho dentro de mim, por mais incômodo que seja, é a mais pura liberdade.

    Kiwi Doce

    E o Tsundoku só cresce!

    Mas dessa vez a minha consciência não ficou tão pesada. Esses 3 exemplares (Neve, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e UBIK) fazem parte de uma recompensa. Participei de um concurso literário e a minha crônica ficou em primeiro lugar. Ganhei brusinha, caneta, bloquinho de notas e 100 joesleys pra gastar na Fnac.

    Tá vendo? Esse blog também tem posts vitoriosos, viu? Não é só tristeza, não. 😄

    Foi um concurso simples e local (promovido pela universidade na qual faço o doutorado), mas esse resultado me alegrou e me motivou a escrever mais. Recebi um feedback interessante dos avaliadores: eles gostaram do que tava escrito, de como estava escrito, da fluidez do texto. E em um oceano de autoestima baixa e de desvalorização do meu próprio trabalho, essa premiação simbólica esquentou o meu coração de forma positiva. Bom, eu sei que esse sentimento não vai durar muito (na verdade, já passou), mas valeu a dose de motivação.

    —–

    Cortei o cabelo. Queria franja, mas o cabeleireiro disse que não ficaria legal em mim. A ideia era esconder as manchas na testa que estão a crescer e parecem um mapa do Cazaquistão. Comprei kiwi, e dessa vez, acertei na doçura. Um kiwi doce! O melão estava azedo e as uvas também. Tenho jogado muita coisa fora: desperdício. Uma vergonha não saber gerenciar os alimentos. Um dia eu aprendo.

    Dimanche

    Você tem dificuldade para fotografar alguma coisa? Eu tenho dificuldade para fotografar discos. Eu sempre tiro o mesmo tipo de foto e não consigo ser tão criativa com essas bolachas. Sugestões são bem-vindas, caso você queira fornecer alguma. 😊

    Neutral Milk Hotel é uma paixão recente. O disco da foto é o In the Aeroplane over the Sea, lançado em 1998. Enquanto escrevo esse post, escuto a Two-Headed Boy, Part Two e que música perfeita para um domingo sem graça. John Coltrane dispensa apresentações, bem como as vaquinhas do Atom Heart Mother do Pink Floyd.

    Estamos aguardando a entrega de 18 discos (a falência será decretada) e eu cheguei à conclusão de que a música é, de fato, o combustível que nos move. Quando estamos tristes ou felizes, quando estamos em dúvida, quando vamos celebrar alguma conquista ou quando vamos celebrar o nada, é a música que está ali para nos amparar. Talvez eu esteja exagerando ou talvez eu só esteja querendo melhorar esse domingo sem graça. 😌

    Silence

    People never expect silence. They expect words, motion, defense, offense, back and forth. They expect to leap into the fray. They are ready, fists up, words hanging leaping from their mouths. Silence? No.

    O ato de conversar com alguém tem sido a minha maior fonte de arrependimento. O gasto de energia começa com os olhares que antecedem e permeiam o diálogo. Aquela fita métrica visual que reside no olhar do outro, que verifica o seu all star sujo, a sua calça jeans desbotada e a sua blusa de banda desgastada. Não há contato visual na conversa, há apenas o olhar de desprezo e a arrogância. A energia continua a ser sugada com os donos da razão. Toda hora é hora para o show das certezas. Ninguém se recolhe para pensar, ninguém cessa o falar para refletir.

    E assim vamos nos relacionando pelos corredores dos prédios, pelas ruas em direção ao trabalho, pelas redes sociais, pelos caminhos da vida. A mente cobra caro para que você mantenha a sua sanidade no meio de tanta superficialidade, no meio de tanta sapiência, no meio de tanta roupa bonita e experiência internacional. Mas você continua a “remar contra a maré”, continua com as suas roupas rotas e com as suas dúvidas sobre todos os assuntos levantados. E continua a se arrepender de tentar conversar de forma leve sobre uma flor que brotou no jardim, ou aquela suculenta que morreu, sobre como você nunca irá se aposentar ou sobre os seus dissabores cotidianos.

    Sabe aquela frase “perdeu a oportunidade de ficar calado/calada”? Pois então, talvez seja a literal solução. Eu não quero perder nenhuma oportunidade dessa mais.